segunda-feira, 9 de novembro de 2009
A fogueira das vaidades
Moro na periferia de uma grande cidade, onde as pessoas mais jovens não têm nomes como Paulo, João ou Pedro: os pais da garotada daqui acham que é necessário sofisticar, e para isso abusam, especialmente, de k's e y's, letras que até recentemente creio que não faziam parte do alfabeto usado no Brasil. Mas não é só isso: há todo um contexto cultural maior que eu não sei explicar ou definir; quando muito posso dar exemplos, e essa postagem é um pouco para isso.
Bem, o sonho dos pais dessa garotada é que seus filhos tenham um futuro. O que isso quer dizer realmente, eu não sei, mas o que acontece de fato é que os mais sortudos desses rapazes e moças vão parar em cursos universitários de instituições privadas, que existem às dúzias por aqui.
Foi numa dessas instituições que minha esposa, por exemplo, se formou professora de português. Eu, como professor de uma universidade pública, por acaso me ofereci para substituir por uma semana uma colega que ia viajar, ficando no lugar dela nas aulas de uma disciplina do tipo "Psicologia da Educação". Uma das aulas que eu peguei tinha como tema um sujeito chamado Henri Wallon. Perguntei à minha senhora se ela já tinha ouvido falar do sujeito e a resposta foi, é claro, um sonoro não. Skinner? "Quem?" Enfim, acho que é assim que se forma a maioria de nosso professorado.
O mais interessante é que essas instituições privadas oferecem não só cursos de licenciatura, mas também outras coisas muito interessantes, como turismo. O que leva um sujeito a buscar um curso universitário de turismo eu não sei mesmo, pois jamais me passou pela cabeça estudar algo desse tipo, mas eu entendo que há razões que são muito diferentes das minhas.
Pois foi nesse contexto que surgiu por esses dias uma personagem contendo o y fundamental em seu nome, construindo seu caminho para a fama. "Celebridade miojo" parece ser o termo apropriado: feita em três minutos, consumida em cinco. Todos se comportam como era esperado, especialmente a imprensa, que se vê como A defensora da liberdade e da justiça (o artigo é com letra maiúscula, mesmo). Opiniões para todo lado, faltava a minha: isso me lembra "A fogueira das vaidades", o livro, não o filme. E a moça me lembra, por razões estéticas e culturais, Joelma, do Calypso (banda que também tem o y necessário): os vestidos de uma combinam perfeitamente com os da outra.
(imagem: "Vaidade", de Frank Cadogan Cowper, o último dos pré-rafaelitas)
domingo, 8 de novembro de 2009
O pequeno príncipe
Eu já dei palestras de divulgação científica algumas vezes. É muito comum que eu mostre uma sequência de imagens que começa na Terra, passa pela Via Láctea, com seus bilhões de estrelas, e termina com uma foto que contém várias galáxias, quando então eu afirmo que estima-se que há ao nosso redor no mínimo bilhões de galáxias, cada uma com seu bilhão (ou centenas de bilhões) de estrelas. Acho que assim fica na audiência a óbvia mensagem de que o ser humano é ridiculamente pequeno.
Eu aprendi cedo que sou pequeno. Aprendi a conviver com isso, com esse sentimento de "pequenez" todos os dias, todas as horas e, em especial, quando me olho no espelho, ou quando me vejo em fotos. Cada homem é pequeno, ínfimo mesmo, e eu, dentre todos, sou um dos menores. No entanto...
Ridiculamente, eu sonho. Como todo ser humano, às vezes eu cedo às minhas fantasias. E aí vem a realidade: "Don't get any big ideas / They're not gonna happen". É sempre isso, simples assim: "As estrelas são belas (...) O deserto é belo". Eu não. Eu, pequeno, não tenho nenhuma gota de beleza ou nobreza, mas caí no deserto e quero voltar para o meu planetinha, já que sei que meu reino não é deste mundo... Pena que eu não leve jeito para conversar com serpentes.
(imagem: "As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê..."; fotografia produzida pelo European Southern Observatory.)
sábado, 24 de outubro de 2009
O ponto de mutação
Por conta de um curso de capacitação que estou fazendo, acabei topando com um vídeo (na minha opinião, muito tosco) do YouTube em que aparece como "ilustração" o livro "O ponto de mutação", de Fritjof Capra. Só ver esse livro me causa náuseas e, assim, corri para escrever para os organizadores do curso sobre a inadequação do vídeo que eles apresentaram.
No entanto, fiquei curioso para saber se havia alguém mais que se sentia como eu em relação a esse livro e ao seu autor. Uma pesquisa no Google revelou que o livro é uma unanimidade: todos o amam. Ou seja, eu é que devo estar errado. Contudo, por conhecer bem o nível de educação dos brasileiros, eu fiquei com uma pulga atrás da orelha, e prestei atenção em quem falava bem do livro - em geral, são pessoas ligadas à área de humanidades e/ou ao esoterismo e/ou a "pensamentos alternativos"...
Em inglês, achei facilmente um texto crítico, bem onde devia estar: no Skeptical Inquirer, num número de agosto de 2005. Para quem não sabe, o Skeptical Inquirer é uma revista bimensal americana, editada por uma associação (o CSI) dedicada a "encorajar o livre-pensamento e a investigação crítica de alegações paranormais e pseudocientíficas a partir de um ponto de vista científico responsável". Foi o CSI quem trabalhou para desmascarar, por exemplo, o israelense entortador de garfos Uri Geller.
Ei, mas o que "O ponto de mutação" tem a ver com "alegações paranormais e pseudocientíficas"? A resposta é... tudo. No artigo da Skeptical Inquirer, intitulado "How do you solve a problem like a (Fritjof) Capra?", a chamada já diz que os livros de Fritjof Capra são "ingênuos e enganadores, ignorando o sucesso das explicações mecanicistas detalhadas, especialmente na biologia". O artigo termina adjetivando Capra como um "pseudocientista".
Se essas críticas são verdadeiras, então como Capra faz tanto sucesso? Simples: as pessoas, em geral, têm uma péssima educação científica. Na verdade, a maioria das pessoas tem ou teve dificuldade em entender ciências básicas, em especial a física e, portanto, acha que elas deveriam ser esquecidas ou modificadas. Como não dá para esquecer essas ciências (se nunca tivesse havido a física, não existiriam, por exemplo, celulares e computadores: dá para esquecer isso?), as pessoas gostariam muito de mudá-las para algo mais palatável, algo mais gostoso, e aí caem facilmente no conto de vendedor-de-carros-usados de gente como o senhor Fritjof Capra, que diz que existe uma ênfase exagerada no método científico e no pensamento racional (são palavras dele, não minhas).
É, talvez fosse melhor usar mais o pensamento mágico, ser não-racional, não-cartesiano. Aliás, eu já fui xingado (isso mesmo, xingado) como sendo um reles cartesiano. O que isso quer dizer? Bem, o pensamento de Descartes, o filósofo, sobre a existência humana pode ser resumido numa única frase famosa: "penso, logo existo". Ou seja, o ato de pensar confirma minha existência. Se eu não pensar, não sei se existo. Ou mais ou menos isso. Assumo, portanto, que ser não-cartesiano é negar isso, e não ver o pensamento como algo relevante para a existência. Se assim for, eu prefiro mesmo afirmar que sou cartesiano: eu penso e existo.
Eu estou exagerando, é claro: a crítica ao cartesianismo é, principalmente (assim espero), a crítica ao reducionismo - para os filósofos da "modernidade", é muito mais importante, hoje, pensar no todo antes, ao invés de dividir um problema em partes menores. Eu não sei, talvez o problema seja mesmo meu, mas eu tenho dificuldades em imaginar como seria uma ciência não cartesiana, não reducionista. Por exemplo, meu no-break parou de funcionar, repentinamente, estes dias; de acordo com a visão reducionista, eu o desmonto e procuro parte por parte onde está o defeito, e daí acho uma explicação - ah, é o fusível, logo houve um pico de energia elétrica na rede e o fusível fez o que era esperado dele. De acordo com a visão holística, o que eu deveria fazer? Olhar para o sistema computador-no-break-rede elétrica-casa como um todo e esperar uma intuição mágica do que fazer? Trocar tudo, todo o sistema computador-no-break-rede elétrica-casa, pois não faz sentido resolver o problema por partes?
Enfim, eu gostaria que as pessoas deixassem de ser preguiçosas e se esforçassem para aprender ciência. É difícil? É, ao menos para boa parte das pessoas. Mas não há mágica. Não há soluções maravilhosas fora da ciência, exceto talvez em milagres, mas esses são beeeeeeem raros. Eu, ao ter uma dor de cabeça, prefiro tomar um analgésico, que se sabe como funciona, do que esperar por uma solução, sei lá, mágica, holística, que ninguém sabe dizer se vai resolver mesmo o meu problema. Mas talvez isso seja só comigo mesmo, e eu esteja falando e pensando sozinho.
(imagem: diagrama representando uma complexa cadeia alimentar na Noruega; eu já dei aulas de ecologia e sei que nem tudo é simples, mas não é por isso que eu vou abandonar os métodos mais simples de resolução de problemas - a simplicidade funciona, na enorme maioria das vezes)
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Tolerância
Li num outro blog que Maitê Proença está passando por "problemas" com os portugueses, por conta de um quadro com ela num programa de TV (que eu acho muito chato).
Bem , o que eu lembro de Maitê Proença? Eu me lembro da Playboy com ela, que tinha um caderno especial com fotos em preto e branco, sendo que uma mostrava o pé da moçoila. Eu me lembro de Dona Beija. Eu me lembro do Mário Quintana babando. E eu me lembro de um filme brasileiro, "Tolerância", que no site do imdb recebe uns poucos comentários, sendo que há um que diz "Tolerancia is a movie so bad, you cannot help laughing most of the time".
Eu lembro que no filme um pequeno proprietário de terras (ou um sem-terra, já não me lembro mais) é assassinado num crime comum (um assalto) que, bem, o filme faz entender que não era crime comum coisa nenhuma, mas sim uma encomenda bem disfarçada. Ou seja, o filme mostra que é plausível disfarçar crimes encomendados como crimes comuns, se você for esperto o suficiente.
O que eu quero dizer é que às vezes um charuto é só um charuto mesmo, mas isso quer dizer também que às vezes é algo mais. Eu, que sempre tive dificuldades com mentiras, e desconfiado por natureza, prefiro estar pronto para qualquer coisa, mesmo sabendo que o charuto é, na enorme maioria das vezes, apenas um charuto. Enfim, sei lá.
(imagem: um charuto, da wikipedia em espanhol - dá para reconhecer a imagem de fundo?)
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Guia do novo ENEM
A prova do ENEM vazou. E, por conta disso, milhões de candidatos foram prejudicados. A quem interessa isso? Quem foi beneficiado?
Se tivesse sido para passar informações privilegiadas a alguns candidatos, o vazamento teria sido sigiloso, e não teria sido anunciado a jornalistas. Logo, eu entendo que o que houve foi sabotagem, pura e simplesmente. Sabotagem para enterrar o projeto do "novo ENEM", ou para demonstrar que o atual governo é incompetente, não interessa: minha leitura é que foi sabotagem.
Pouca gente tem falado que o ENEM estava sendo usado, nos últimos anos, para a seleção dos candidatos às bolsas do programa ProUni. Nesse tempo nunca houve vazamentos. Bastou ampliar o alcance para incluir cursos tradicionais, de universidades federais, antes redutos da classe média, para que houvesse problemas. Me lembra a discussão das cotas: por trás há polticagem e preconceitos, do pior tipo.
Enfim, pobre país em que acontecem coisas desse tipo. A oposição atual daqui não joga limpo.
(imagem: página com um ensaio do SAT, teste aplicado nos estudantes estadunidenses)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Dicionário prático japonês-português
Hoje fui à aula de japonês. E saí de lá com um problema. Difícil, certamente. Insolúvel? Não...
O problema? Minha professora me apresentou um vídeo bem bonitinho, tirado do final dos anos 60, de um grupo chamado "The Drifters", que fazia música e comédia na TV japonesa. A música que aparece no vídeo chama-se "Miyo-chan", e eu fiquei tão interessado que quis achar, por conta própria, a letra para fazer a tradução. Mas não achei nada na internet.
Língua errada, é claro: bastou escrever no Google ミヨちゃん e a letra apareceu. Na verdade, não foi tão simples assim, pois apareceu a indicação de um milhão de páginas: como eu, estudante iniciante de japonês, posso saber qual é a certa? Problema...
Achei a música no YouTube e a ouvi algumas vezes. Peguei um trecho cujos sons achei que entendi, descobri como escrevê-lo em japonês e voltei ao Google: 僕のかわいいミヨちゃんは. A primeira página indicada me deu o seguinte texto:
Enfim, falta a tradução. Mas o legal de se estudar uma língua estrangeira é isso: descobrir coisas novas e, no processo, exercitar o raciocínio. E o mesmo vale para o estudo da natureza, pois como disse Galileu,
O problema? Minha professora me apresentou um vídeo bem bonitinho, tirado do final dos anos 60, de um grupo chamado "The Drifters", que fazia música e comédia na TV japonesa. A música que aparece no vídeo chama-se "Miyo-chan", e eu fiquei tão interessado que quis achar, por conta própria, a letra para fazer a tradução. Mas não achei nada na internet.
Língua errada, é claro: bastou escrever no Google ミヨちゃん e a letra apareceu. Na verdade, não foi tão simples assim, pois apareceu a indicação de um milhão de páginas: como eu, estudante iniciante de japonês, posso saber qual é a certa? Problema...
Achei a música no YouTube e a ouvi algumas vezes. Peguei um trecho cujos sons achei que entendi, descobri como escrevê-lo em japonês e voltei ao Google: 僕のかわいいミヨちゃんは. A primeira página indicada me deu o seguinte texto:
「みなさん、まあ僕の話を聞いて下さい。É a letra da música que eu procurava? Acho que é, por comparação com o vídeo do YouTube.
ちょうど、僕が高校二年であの娘も
ミヨちゃんも、高校二年の時でした。」
僕のかわいいミヨちゃんは
色が白くて小ちゃくて
前髪たらしたかわいい娘
あの娘は高校二年生
ちっとも美人じゃないけれど
なぜか僕をひきつける
つぶらな瞳に出あう時
何にもいえない僕なのさ
それでもいつかは逢える日を
胸にえがいて歩いていたら
どこかの誰かとよりそって
あの娘が笑顔で話してる
(間奏)
父さん母さんうらむじゃないが
も少し勇気があったなら
も少し器量よく生まれたら
こんなことにはなるまいに
「そんなわけで、僕の初恋は
みごとに失敗に終わりました。
こんな僕だから恋人なんていつのことやら
でも、せめて夢だけは
いつまでももちつづけたいんです。」
今にみていろ僕だって
素敵なかわいい恋人を
きっとみつけてみせるから
ミヨちゃんそれまでさようなら
さようなら
Enfim, falta a tradução. Mas o legal de se estudar uma língua estrangeira é isso: descobrir coisas novas e, no processo, exercitar o raciocínio. E o mesmo vale para o estudo da natureza, pois como disse Galileu,
“(O Livro da Natureza) está escrito na linguagem matemática, e os seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem os quais é humanamente impossível perceber uma só palavra; sem eles, vagueamos num escuro labirinto.”Fazer ciência é estudar uma língua nova, a da natureza, e ser sempre um iniciante, vasculhando a resposta mais adequada entre milhares de possibilidades, quase às cegas. Por isso mesmo é tão excitante, e vez por outra você acaba até descobrindo uma música bonita... さようなら (ou, em caracteres ocidentais, sayonara, isto é, "até logo"!)
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Depois do baile
Não pude deixar de perceber que eu poderia ter conversado com algumas pessoas que acompanham este blog (estou realmente surpreso que elas existam) e com autores de outros blogs que eu acompanho, em Arraial do Cabo, no último fim de semana. Mas praticamente não o fiz: entrei quase mudo e saí quase calado. Aos meus leitores acho que devo um pedido de desculpas, e essa postagem é meio que para isso.
Acho que a minha primeira paixão "aconteceu" quando eu tinha uns treze anos. Ela era uma mocinha oriental (acho que se chamava Kelly Cristina, ou algo assim) e, um belo dia, depois de perceber o quanto eu estava abobalhado, ela me convidou para uma festa na casa dela, para um daqueles bailinhos de adolescentes com músicas românticas. Eu me senti totalmente perdido: a menina era muito bonita, e sua casa era no centro da cidade, enquanto eu era muito feio e morava na periferia. Hoje vejo que eu estava no meio de um daqueles filmes de "besteirol americano", fazendo, é claro, o papel clássico de nerd.
Trinta anos depois disso, aconteceu o EWCLiPo (ótimas descrições do evento podem ser achadas em outros blogs), no último final de semana. E, ao ver as palestras e pessoas lá, saltei uns trinta anos para trás. As pessoas lá eram todas - todas - muito mais bonitas, mais bem vestidas, mais saudáveis e mais inteligentes do que eu. Ao ver uma palestra - muito, muito interessante - sobre gastronomia molecular, me senti um neandertal: gastronomia, para mim, é um luxo, algo que eu nunca entendi. Ao ver, na confraternização do primeiro dia, a distribuição de um risoto de (ou seria com?) frutos do mar, me senti um mendigo: eu nunca como nada assim tão sofisticado. Durante a confraternização algumas pessoas falavam de cervejas européias, estadas na Alemanha, pós-docs sei lá aonde.
Com o passar dos dias, meu sentimento de inferioridade só foi crescendo. A junção de arte e ciência era algo que eu só sonhava que existisse, como projeto, em minha cabeça, algo que eu nunca vira no mundo real, e estava lá, na minha frente, apresentada por duas pessoas, com o anúncio até de uma oficina literária. O ápice se deu com a apresentação de uma neurocientista, uma moça com uma fala e aparência tão diferente das moças e pessoas que eu vejo e vi nos meus dias, que já até apresentou uma matéria no Fantástico, que eu me senti um alienígena, morando num acampamento improvisado, vivendo num refúgio de periferia criado para criaturas estranhas como eu.
E mesmo as pessoas "estranhas", de aparência não televisiva, falaram de coisas tão inteligentes, que eu me senti uma ameba.
Não estou exagerando: estudei na USP e na UNESP, em diferentes cidades, campi, cursos e níveis, trabalhei em duas universidades federais, em dois estados diferentes, e nunca, nunca estive num meio tão socialmente sofisticado. Meu mundo foi, e é, o de gente comum, que come arroz, feijão e miojo todos os dias. Eu como miojo quase todas as noites. A peça de roupa mais cara que eu comprei na minha vida toda é a bota que eu uso hoje, que comprei apenas para poder acompanhar melhor os alunos em caminhadas no mato, e que custou uns cem reais.
Onde eu vivi esse tempo todo? Não sei. Acho que vivo de restos e migalhas de um mundo que eu não consigo enxergar, de uma mesa que é alta demais para que eu possa ver o que há nela. E eu, pelos critérios do Brasil, sou um privilegiado: eu estudei e tenho um emprego. Eu sou parte da elite - e não sou nada.
Tudo isso é muito estranho. A neurocientista, charmosamente carioca e impressionantemente "estilosa" (sentado atrás dela, não pude deixar de reparar que ela retocou o batom antes de levantar para falar), comentando, em sua apresentação, aulas de dança de salão que ela teve, me lembrou uma colega, oriental e bióloga, filha de cientistas, que dança graciosamente ao andar, e tudo isso me lembrou Kelly e as dúzias de paixões (não correspondidas) que eu tive: acho que as perdi, em parte, por eu nunca ter sabido dançar. Eu nunca dancei, eu nem mesmo consigo perceber o ritmo, a não ser quando já é tarde demais, e, por isso mesmo, acho que já dancei...
(imagem: mais uma imagem tirada da wikipedia - ""Il Ballo" (ou "A dança", com a legenda, em italiano, dizendo mais ou menos "Uma dança festiva desperta o amor e alimenta a esperança com viva alegria."), de Giuochi, Trattenimenti e Feste Annue Che si Costumano in Toscana e Specialmente in Firenze"; já o título dessa postagem é tirado de um conto de Tolstoi)
sábado, 26 de setembro de 2009
A terra dos meninos pelados
Dirigi por quase seiscentos quilômetros para participar da segunda edição do EWCLiPo (Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa), em Arraial do Cabo. O que aprendi? Quem conheci? Não sei mesmo, mas me surpreendeu o bom humor do Cardoso, gostei de saber que existe alguém pensando em "Poesia para Físicos", e me marcou uma dica mostrada pelo organizador do evento, citando um poema de João Cabral de Melo Neto, intitulado "Graciliano Ramos":
"Falo somente com o que falo:É preciso falar de forma precisa, e saber falar do que se fala, ouvindo quem se quer como ouvinte. Isso me fez pensar: e eu que, por ficar isolado nos coffee breaks, aqui parece que cumpro mais uma vez o papel de Raimundo Pelado, eu, precisamente, para quem eu falo? Do que eu falo? Da minha janela, neste hotel, vejo sol, mar e areia, e reconheço meu tema e minha platéia. E, claro, aqui o vento não me deixa esquecê-lo, e espero que faça o seu trabalho: a ele confio minhas palavras, sempre.
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordeste, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
(...)
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol
pelo gavião e outras rapinas.
(...)
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa de um despertador
acre como o sol sobre o olho
que é quando o sol é estridente
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pedras como
se bate numa porta a socos."
(imagem: um marco histórico na Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo, em foto da wikipedia - será que ele marca os caminhos de Tatipirun?)
domingo, 20 de setembro de 2009
O que é vida?
Diz a lenda que havia duas árvores importantes no Jardim do Éden bíblico, uma ligada à vida e outra ligada ao conhecimento do bem e do mal.
Diz a lenda que Moisés viu uma sarça ardente, "e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia". E no meio da sarça Moisés encontrou Deus.
Diz a lenda que Buda parou embaixo de uma árvore, para meditar. E sob a figueira Buda alcançou a iluminação e encontrou o nirvana.
Fui a um aniversário de um amigo, e na casa da namorada dele havia, bem na entrada, uma mesinha com dois porta-retratos: num a moça, seu irmão e a mãe deles, no outro a bela folhagem de uma árvore fotografada de baixo para cima, em maravilhoso contraste com o céu, que eu não pude deixar de notar.
Na estrada, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, parei para ver um "ipê-amarelo", iluminado ao mesmo tempo pelas flores que vieram saudar a primavera e por um raio de um sol de um fim de tarde, escapando de um céu nublado. E eu, ao ver isso, não pude deixar de parar o carro.
Não, eu não sou Moisés ou Buda, mas acho que encontrei Deus e alguma iluminação, um dia, na beira do meu caminho, quando eu voltava da padaria, com um saquinho de leite B e um punhado de pães. E havia uns arbustos conhecidos como "coroa-de-cristo" cercando as laterais da viela sem asfalto por onde eu caminhava.
E o que eu vi era indescritível, mas era luz, vida e conhecimento, certamente.
Pena que hoje, em meu mundo, ao meu redor, exista pouco além de cimento e asfalto, e de uma corrida sem fim em busca de sucesso. E a cidade em que eu moro parece viver um inverno eterno, sem cores.
Não vivo no paraíso, não sou profeta, nem um grande cientista (não sou nem mesmo um cientista mediano), mas talvez eu também possa, com a pouca ciência que conheço, ajudar na descoberta do sentido da vida: eu sei que viver é conhecer, para o bem e para o mal. Onde o fogo, a luz, onde a vida? Tem que ser em mim, que conheço tudo isso. Que eu busque ser a árvore que dá frutos e sombra ou que, pelo menos, eu tente ajudar a embelezar e iluminar o caminho de outros...
(imagem: árvore fotografada por meu celular, no meio do nada)
Desvendando o arco-íris
Na estrada, em direção a mais um congresso, paro para entender os dois arcos coloridos que emolduram o meu caminho: nunca vi nada igual. O que isso pode significar? Será que o universo está querendo me dizer algo?
Dias antes, minha filha, de sete anos, sentada no banco de trás do carro, tinha me perguntado quantas cores há no arco-íris. Quantas? Sete é a resposta padrão, mas eu sei que é só uma resposta padrão: há entre o azul e o vermelho muito mais do que sete passos...
Enfim, o que haverá no final dessa estrada de asfalto com linhas amarelas? Há um tesouro no fim do arco-íris? Tudo bem, eu não queria encontrar mesmo um tesouro, mas sim uma ponte para uma outra realidade e, no entanto, sei que não é nada disso. O que eu vou encontrar é outro dia e outra estrada e outros dias chuvosos se misturando com dias ensolarados.
Não há mágica no universo. O que há é beleza, e eu posso parar para admirá-la e, talvez, indicá-la a outros. Hoje, isso é mais fácil, já que inventaram celulares com câmera, computadores e a internet, e eu posso rapidamente contar a todos o que aprendi: o que me trouxe aqui, o que nos trouxe aqui, não foi nenhum milagre - foi o trabalho de homens e mulheres, como eu e você.
Quantas cores há no arco-íris, minha filha? A lenda diz que são sete, mas eu sei que são mais, muito mais: a realidade é muito mais sofisticada que as lendas. Basta estudar para aprender a ver mais. E eu vou a mais um congresso, para ver se aprendo algo mais sobre pontes para outras visões da realidade.
(imagem: foto vagabunda que tirei com meu celular, perto de Guararema)
domingo, 6 de setembro de 2009
O governo Jânio Quadros
E para falar um pouco mais dos jornais de domingo, encontro na Folha de hoje um intelectual, José Arthur Giannotti, falando da política atual:
"Já tenho idade para ter assistido a várias dessas irrupções salvadoras e moralizadoras: Jânio, Collor... Qual seria o conselheiro da vez?"Pois é: eu acho que faltou falar quem se beneficiou com o aparecimento dos aventureiros Jânio e Collor. Collor, por exemplo, foi criado para derrubar quem? "Cui bono"...
(imagem: o presidente Jânio Quadros, em foto divulgada na wikipedia; o título dessa postagem é o mesmo de um livrinho da coleção Tudo é História, da editora Brasiliense, de autoria da professora Maria Victoria de Mesquita Benevides, "homenageada" pela Folha recentemente, num episódio muitíssimo didático da "ditabranda" - recomendo a leitura do texto lincado aqui...)
Agosto
Hoje, domingo, peguei a Folha e achei, com bastante atraso, um texto lembrando da morte de Getúlio Vargas, escrito por um Ferreira Gullar, ex-poeta e ex-comunista, intitulado "Mataram o Velhinho". Eis alguns trechos:
"Lacerda, na "Tribuna da Imprensa", jornal que havia sido criado para combater o getulismo, chegou a escrever: "O senhor Getúlio Vargas não pode ser candidato; se candidato, não pode ser eleito; se eleito faremos uma revolução para derrubá-lo." De fato, Getúlio candidatou-se, elegeu-se e tomou posse na presidência do país. Lacerda, por sua vez, não desistiu das ameaças que fizera e desencadeou contra ele uma guerra sem tréguas, com acusações de toda ordem."Resultado? Em 24 de agosto de 1954 Getúlio se suicidou e eis o que reporta Ferreira Gullar:
"... todos que ali estavam mostravam-se a favor da deposição do presidente. Eu também, o que era natural, uma vez que a campanha de Lacerda surtira efeito: de minha sogra, que era católica, gaúcha e getulista, ao partido comunista, todos estavam contra Getúlio."
"... logo a multidão tomou as ruas, indignada com a morte de um presidente que, de fato, não roubara nem enriquecera."Getúlio morreu, saindo da vida para entrar na história. E o que a história fala dele? Vamos à wikipedia:
"Getúlio era chamado, pelos seus simpatizantes, de "pai dos pobres" (título tirado do livro de Jó 29,16), e, por pessoas próximas, de "Doutor Getúlio"."
"Durante o governo provisório, Getúlio Vargas deu início à modernização do Estado brasileiro. Criou:A lista de realizações de Getúlio continua, com mais uma dúzia ou tanto de itens, e continua no Estado Novo:
- Em 18 de Novembro de 1930, através do decreto 19.408, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
- Em 15 de dezembro de 1930, o decreto nº 19.488 reduz o número de feriados nacionais de 12 para seis.
- Em 1931, o Correio Aéreo Militar, depois denominado Correio Aéreo Nacional e o Departamento de Aviação Civil
- Em 11 de abril de 1931, o decreto 19.851 disciplina o ensino superior no Brasil dando preferência para o ensino superior ministrado em universidades."
"No Estado Novo foram criados o Ministério da Aeronáutica, a Força Aérea Brasileira, o Conselho Nacional do Petróleo, o Departamento Administrativo do Serviço Público, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Nacional de Álcalis, a Companhia Vale do Rio Doce, o Instituto de Resseguros do Brasil, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, o Conselho Federal do Comércio Exterior, a lei da sociedade anônima.E a coisa continua, e continua e continua...
Getúlio deu os primeiros passos para a criação da indústria aeronáutica brasileira. Foi criada a Fábrica Nacional de Motores (FNM), inicialmente planejada para ser fábrica de aviões, e que posteriormente produziu tratores e o caminhão "FNM"."
Getúlio foi um ditador, que tomou o poder numa revolução que acabou com a República do Café com Leite, controlada pela oligarquia (palavra complicada...) agrícola do Brasil. Ou seja, Getúlio "representava" uma revolução que modernizou o país e, de fato, ele fez isso. E foi eleito depois, com enorme apoio popular. E acho que foi isso, a popularidade de Getúlio, que deixou seus críticos, especialmente Lacerda e os paulistas, mais irritados.
Algum paralelo com o que acontece hoje? Quem representa Lacerda hoje? Quem vive irritado com a popularidade de personalidades públicas? Não sou só eu que vejo a semelhança...
Enfim, a história não é assunto muito conhecido pela maioria dos brasileiros, mesmo os educados (aliás, o que sabe a maioria dos brasileiros? Os jornais que eu leio, voltados para a classe média, têm ótimas seções de gastronomia, cultura e esporte, onde eu leio em cada página o lema "pão e circo". A quem isso interessa?). E, citando sem saber a fonte, "um povo que não conhece sua própria história é fadado a repetir os mesmos erros do passado."
Em tempo: em seu tempo, a imprensa do "golpista" Lacerda influenciou até mesmo intelectuais como Ferreira Gullar; hoje, eu vejo, com medo, o mesmo acontecendo com a classe média toda. É triste e trágico.
(imagem: "Bota o retrato do velho outra vez\ Bota no mesmo lugar\ O sorriso do velhinho\ Faz a gente trabalhar\ Eu já botei o meu\ E tu, não vai botar?\ Já enfeitei o meu\ E tu vais enfeitar?\ O sorriso do velhinho\ Faz a gente trabalhar", marchinha de carnaval, de Haroldo Lobo, em homenagem a Getúlio - a foto é da wikipedia)
1984
Os jornais, os jornais: não gosto deles, mas os leio todos os dias. Para mim a imprensa brasileira é elitista, parcial, conservadora, direcionada, manipuladora, provinciana, e eu acho que poderia adicionar uns outros tantos adjetivos nada elogiosos. E quando eu comento isso com algumas pessoas, elas me perguntam: "qual a fonte de informação que é confiável? Onde buscar a descrição dos fatos de forma mais próxima do que na realidade aconteceu?" Eu, sinceramente, não tenho essa resposta. Só o que eu sei é que é preciso ler os jornais de forma crítica, com uma lente, lendo o que não foi escrito neles. Repetindo o que eu escrevi num outro blog:
"Eu leio a Folha (sou assinante há N anos, até me mandaram um cartão por isso) e o Estadão (raramente vejo a Globo) com um filtro na frente; na enorme maioria das vezes o que eles dizem é verdadeiro, mas há motivos por trás disso. Não sei se vocês lembram de um comercial que a Folha (é, a Folha...) fez, onde depois de falar várias coisas boas e verdadeiras de um sujeito ela mostrava quem era o sujeito."Enfim, eis o comercial da Folha:
A história é sempre escrita pelos vencedores, mas para vencer, muitas vezes, é importante escrever a história antes...
(imagem: Senate House, em Londres, que, segundo a wikipedia, teria servido de inspiração para o Ministério da Verdade que aparece no livro 1984, de George Orwell)
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
As origens do totalitarismo
Eu sonho. Na noite da terça para a quarta acordei com a clara recordação de meu sonho: eu sonhei que vivia num mundo em que Hitler vivia, um mundo controlado por nazistas e em que todos eram evangélicos... Em meu sonho uma mulher era fuzilada na minha frente por ter ido a um lugar "proibido" e visto o que não devia ser visto.
O que esse sonho quis me dizer? Simples: eu tenho medos. Ditaduras me assustam. Controle e manipulação das informações também me assustam. A imposição da verdade me assusta. O pensamento fundamentalista me assusta. A paixão cega me assusta.
E o que mais me assusta é ver que essas coisas existem de verdade, no mundo real. Ontem, quarta, vi no canal da National Geographic um documentário sobre os 70 anos da Segunda Guerra Mundial, que me assustou demais por seu realismo e suas ligações com a "modernidade". Só para constar: estava lá um dos pais do capitalismo moderno, Henry Ford, com seu apoio ao nazismo.
Enfim, eu sei que Goebbels não está mais na Terra, mas não tenho certeza quanto ao destino do seu espírito.
(imagem: você podia ter um desses de qualquer cor, desde que fosse preto...)
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Os robôs do amanhecer
Acabo de sair de um seminário da área de cognição, onde o palestrante falou sobre uma tal de "embodied embedded cognition", teoria em que se supõe que o pensamento é totalmente dependente do corpo e do ambiente. Cada indivíduo teria em si uma série de respostas pré-programadas (todas dispostas em camadas equivalentes no "corpo") que estariam esperando para serem ativadas; o ambiente é que dispara esta ou aquela resposta em detrimento das outras.
Achei interessante a idéia, para não dizer o mínimo, por ir além do dualismo cartesiano de corpo e alma. E, se não me engano, tem (ou pode ter) aplicações na psicologia e na robótica.
(imagem: um enxame de robôs - talvez nossos cérebros sejam assim, mil ações individuais prontas para trabalhar...)
Assinar:
Postagens (Atom)






